A volta dos negócios estressados: inadimplência recorde expõe a conta do crescimento a crédito

Com 9,2 milhões de empresas inadimplentes no país, consultoria vê crescer a procura por turnaround e aponta redução de complexidade.

Por Gilvan Badke ·

A volta dos negócios estressados: inadimplência recorde expõe a conta do crescimento a crédito

<p>Durante alguns anos a EMEG ficou conhecida no mercado pelo principalmente por operar turnaround de empresas. <br>Eu costumo contar nossa história dizendo que nossa carteira de clientes já foi 80% negócios estressados e 20% negócios prósperos.</p><p>Com o tempo, e também por mudanças no nosso próprio modelo de atuação, esse quadro se inverteu. Chegamos a ter 90% da carteira em negócios prósperos e apenas 10% em situação de estresse. Era um reflexo de um cenário econômico mais favorável, mas também de uma escolha estratégica nossa.</p><p>Nos últimos 12 meses, no entanto, essa curva voltou a mudar de trajetória. E os números do mercado como um todo confirmam o que estamos vendo na prática.</p><p><strong>O que os dados mostram</strong></p><p>O Brasil vive um recorde histórico no indicador de empresas inadimplentes medido pelo Serasa Experian. Ao mesmo tempo, o país registra recorde de novos pedidos de Recuperação Judicial e recorde de empresas já em processo de RJ, somando todos os segmentos.</p><p>Na carteira atual da EMEG, 23,5% dos clientes estão em cenário de turnaround. E esse perfil de clientes nos procurando não para de crescer.</p><p>Esse movimento leva a uma conclusão que, para mim, é bastante óbvia. Durante alguns anos, boa parte das empresas cresceu em um ambiente em que capital, crédito e liquidez eram relativamente mais acessíveis. Nesse contexto, ineficiências tático-operacionais e decisões equivocadas muitas vezes eram absorvidas pelo próprio negócio, com impacto menor e mais diluído no tempo.</p><p>Agora com o cenário diferente essas fragilidades ficam expostas.</p><p>Há uma lição, digamos, positiva nesse processo: a maioria dos empresários à frente dessas empresas só aceita mudanças quando não tem mais opções. Eu chamo isso de "armadilha do sucesso".</p><p>A maioria dos empresários não são grandes gestores. Mas enquanto a empresa vai bem, o ego acompanha e fica alto. Aceitar conselhos difíceis, encarar mudanças duras e resolver problemas dolorosos simplesmente não entram no roadmap quando os resultados parecem demonstrar que o caminho escolhido está certo.</p><p>Somente quando o caldo entorna que começa a se instalar a percepção de que as convicções antigas podem não ser tão certas assim, e que ajuda externa é necessária.</p><p>Há ainda um ponto importante nessa jornada: muitas vezes a empresa já buscou ajuda antes, ao longo da deterioração do negócio, mas buscou as pessoas erradas, que não entregaram os resultados esperados. Isso gera um efeito reverso perigoso, a perda de confiança do empresário em novas soluções, justamente no momento em que ele mais precisa de ajuda externa para reagir.</p><p>O que fazer quando o caldo já entornou?</p><p>Não existe receita de bolo e cada empresa tem que fazer o diagnóstico correto para encontrar seu caminho. Mas para deixar um recado direto ao empresário em dificuldade, em muitos casos, o caminho é um downsize.</p><p>Diminuir a complexidade operacional, preservar o caixa reduzindo a necessidade de capital de giro e focar no que realmente gera margem para o negócio é uma trilha muito comum nesses casos, até porque boa parte do problema costuma vir do próprio crescimento do negócio, que não foi bem calculado desde o início.</p><p>Essa é uma das decisões mais difíceis de serem tomadas dentro de uma empresa. E, na maioria das vezes, o mesmo CEO que executou a estratégia de crescimento por anos não consegue, sozinho, fazer o caminho inverso.</p><p>É antinatural e exige muita técnica. O distanciamento emocional do negócio e, muitas vezes, alguém de fora que não carregue o apego às decisões que levaram até ali são fundamentais.</p><p>Poucos CEOs conseguem sozinhos.</p><p>E a diferença entre quem sobrevive e quem não sobrevive a essa fase costuma estar exatamente aí: na coragem de pedir ajuda antes que seja tarde demais.</p>