No setor de rochas, competitividade também significa fazer o capital girar
Estoques longos e prazos extensos de recebimento podem consumir caixa mesmo em empresas que crescem e preservam margens.
Por Fábio Cruz ·
<p>Uma empresa pode crescer, apresentar lucro e, ainda assim, consumir cada vez mais caixa. Não há necessariamente uma contradição nisso. Entre comprar matéria-prima, produzir, manter estoques, vender e finalmente receber existe um intervalo. E, durante todo esse período, alguém precisa financiar a operação.</p><p>Faturamento e margem são fundamentais, mas não contam toda a história de um negócio. Existe outra pergunta que merece ocupar mais espaço nas decisões empresariais: quanto capital precisamos manter comprometido para produzir os resultados que estamos alcançando?</p><p>No setor de rochas naturais, essa discussão ganha contornos muito particulares.</p><p>O Espírito Santo construiu, ao longo de décadas, uma das cadeias mais internacionalizadas de sua economia e uma referência global no setor. Desenvolvemos mineração, capacidade industrial, tecnologia, logística, conhecimento comercial e acesso aos principais mercados consumidores. Mas trabalhamos com uma característica que diferencia profundamente essa indústria de muitas outras: nossa matéria-prima não é fabricada. Ela vem da natureza.</p><p>A indústria normalmente busca reduzir variabilidade. Quanto mais previsível e padronizado for um processo, maiores costumam ser as possibilidades de automação, produtividade e escala. Nas rochas naturais, parte dessa variabilidade está justamente na essência do produto.</p><p>Blocos de uma mesma pedreira podem apresentar diferenças. Chapas retiradas de um mesmo bloco podem revelar tonalidades, desenhos e características distintas. Materiais diferentes exigem processos diferentes de corte, reforço, resinagem, polimento e acabamento.</p><p>Além disso, trabalhamos com um produto que está, de certa forma, entre a construção civil e a moda. Há requisitos técnicos, mas também arquitetura, estética, tendências e critérios de qualidade que muitas vezes carregam um componente subjetivo.</p><p>Essa diversidade é uma das grandes riquezas da indústria brasileira. Ao mesmo tempo, impõe uma complexidade que precisa ser administrada. E parte dela acaba se transformando em estoque.</p><p><strong>Diversidade também precisa de mercado</strong></p><p>A extraordinária variedade de materiais disponíveis no Brasil é uma vantagem competitiva. O risco aparece quando essa diversidade cresce mais rapidamente do que nossa capacidade de construir demanda para ela.</p><p>Cada novo material incorporado ao portfólio precisa ser extraído ou adquirido, processado, transformado, apresentado ao mercado e mantido em estoque até encontrar compradores. Existe capital envolvido em todas essas etapas.</p><p>Por isso, acrescentar um produto ao portfólio deveria vir acompanhado de uma reflexão mais ampla do que apenas seu potencial estético ou sua margem esperada.</p><p>Onde esse material será vendido? Qual mercado tende a absorvê-lo melhor? Qual será sua provável velocidade de giro? Que tipo de cliente compra esse produto e em quais condições? Quanto tempo poderá existir entre o investimento feito naquele material e sua transformação novamente em caixa?</p><p>São perguntas que aproximam decisões muitas vezes tratadas de maneira separada. Portfólio, estoque, estratégia comercial e finanças passam a fazer parte da mesma conversa.</p><p>Um material com margem elevada, mas que permanece durante muito tempo no estoque, pode produzir um resultado econômico bastante diferente de outro com margem menor e giro mais rápido. Isso não significa escolher entre margem e giro. Significa entender que um não deveria ser analisado sem o outro.</p><p>O mesmo vale para uma venda. Uma negociação com excelente margem e prazo muito longo de recebimento pode exigir mais capital da empresa do que outra com margem um pouco menor, mas que rapidamente se transforma em dinheiro.</p><p>Prazo também faz parte da condição comercial.</p><p>É esse intervalo entre colocar dinheiro na operação e recuperá-lo por meio das vendas que o chamado ciclo de conversão de caixa procura observar. De maneira simples, ele considera quanto tempo o capital permanece no estoque, quanto a empresa demora para receber de seus clientes e quanto tempo possui para pagar seus fornecedores.</p><p>O conceito é financeiro, mas a discussão é essencialmente empresarial. Quanto maior o período entre desembolsar e receber, maior tende a ser a necessidade de capital para sustentar a operação.</p><p>Isso ajuda a explicar uma situação que, à primeira vista, parece estranha: em determinadas circunstâncias, crescer pode consumir caixa.</p><p>Mais vendas normalmente exigem mais matéria-prima, mais produção, mais estoque e mais contas a receber. Se esse ciclo continuar longo, o crescimento pode exigir volumes cada vez maiores de capital de giro.</p><p>O problema não está em crescer. Está em não compreender quanto capital esse crescimento exige.</p><p><strong>Construir mercados também é administrar capital</strong></p><p>Há outra particularidade importante do setor. Como não controlamos integralmente aquilo que a natureza nos entrega, precisamos desenvolver capacidade comercial para encontrar diferentes destinos para diferentes partes da produção.</p><p>Essa é uma das razões pelas quais a construção de mercados deve ser entendida de maneira estratégica.</p><p>Estados Unidos, Europa, América Latina, Ásia, Oriente Médio, Oceania, África e o próprio mercado brasileiro não representam apenas oportunidades adicionais de venda ou formas de reduzir dependência geográfica. Dependendo do portfólio de cada empresa, mercados diferentes podem cumprir funções diferentes.</p><p>Um padrão, uma tonalidade, uma dimensão ou determinada faixa de preço pode encontrar maior aceitação em uma região do que em outra. Há materiais que comportam margens maiores e ciclos comerciais mais longos. Outros encontram canais com maior velocidade de giro ou condições de negociação diferentes.</p><p>Em uma indústria com tanta variabilidade, a arquitetura de mercados precisa conversar com a arquitetura da produção.</p><p>Encontrar os canais adequados para aquilo que produzimos ajuda a dar vazão aos estoques, melhora o giro e libera recursos para voltar ao negócio. Nesse sentido, diversificação de mercados não é apenas uma estratégia comercial. É também uma forma de administrar melhor o capital empregado.</p><p>A mesma lógica vale para estoques de baixa rotação. É natural que uma empresa procure preservar a margem planejada para determinado material. Mas mantê-lo por um período muito longo também tem custo: há dinheiro imobilizado, espaço ocupado, movimentação, risco de avaria e, principalmente, a impossibilidade de utilizar aquele capital em outras oportunidades.</p><p>Em algumas situações, aceitar uma margem menor pode ser mais racional do que manter indefinidamente um estoque esperando pela condição ideal de venda.</p><p>Isso evidentemente não significa transformar descontos ou vendas abaixo do custo em política comercial. Significa reconhecer que margem não pode ser analisada separadamente do tempo que o capital permanece preso naquela operação.</p><p>Quando passamos a olhar o negócio dessa maneira, o caixa deixa de ser apenas uma preocupação do financeiro. Compras influencia caixa. Produção influencia caixa. Estoque influencia caixa. O comercial influencia caixa quando define preço, prazo e condições de pagamento. A própria escolha dos mercados influencia caixa.</p><p><strong>Caixa também é valor</strong></p><p>Essa discussão vai além da liquidez do dia a dia.</p><p>Empresas capazes de converter melhor seus resultados em caixa tendem a ter maior capacidade de financiar o próprio crescimento, investir, atravessar períodos adversos e reduzir sua dependência de capital externo.</p><p>Essa característica também importa quando investidores ou potenciais parceiros analisam um negócio. Uma empresa que precisa reinvestir continuamente volumes crescentes de recursos apenas para sustentar sua operação possui uma dinâmica econômica diferente de outra capaz de crescer e, ao mesmo tempo, transformar parte relevante de seus resultados em caixa.</p><p>Por isso, geração de caixa também é geração de valor.</p><p>A indústria capixaba de rochas naturais já demonstrou uma enorme capacidade de evolução. Transformou uma vantagem geológica em indústria, tecnologia, conhecimento, exportação e presença internacional.</p><p>Talvez uma das próximas etapas dessa evolução esteja justamente em ampliar a maneira como avaliamos nossos próprios negócios.</p><p>Não apenas quanto vendemos, produzimos ou qual margem conseguimos alcançar, mas também quanto estoque precisamos manter, quanto tempo levamos para receber, como estruturamos nosso portfólio, quais mercados construímos para dar vazão à produção e quanto capital precisamos manter dentro da operação para sustentar nosso crescimento.</p><p>Cada empresa terá respostas diferentes. Mas uma pergunta merece estar cada vez mais presente na estratégia: Quanto capital precisamos mobilizar para produzir cada resultado?</p><p>Porque competitividade não é apenas produzir melhor ou vender mais.</p><p>É também fazer o capital girar melhor.</p>