Retorno alto, risco alto: o alerta das recuperações judiciais para o investidor

Juros altos e endividamento expõem os riscos dos investimentos em crédito privado.

Por Lorena Varejão ·

Retorno alto, risco alto: o alerta das recuperações judiciais para o investidor

<p>Os pedidos de recuperação judicial atingiram níveis recordes nos últimos anos, em um ambiente de juros altos e crédito caro. Para o investidor, o tema mostra por que olhar só a taxa de um investimento é um risco.<br><br>O Brasil vive o maior ciclo de recuperações judiciais da série histórica. Segundo a Serasa Experian, os pedidos saltaram de 833 em 2022 para 2.273 em 2024, e em 2025 os processos envolveram 2.466 empresas.<br><br>Em 2026, o ritmo diminuiu, com queda de 14,5% no primeiro semestre, mas o patamar segue elevado. Casos como o da Americanas, com R$ 43 bilhões em dívidas, e o da Light, com cerca de R$ 11 bilhões, mostram que o problema não se limita a pequenas empresas.<br><br>Uma empresa pede recuperação judicial quando não consegue pagar suas dívidas em dia, mas ainda acredita que o negócio é viável. O pedido suspende as cobranças e dá prazo para apresentar um plano de pagamento aos credores.<br><br>Na recuperação extrajudicial, mais rápida, a empresa negocia diretamente com parte dos credores e leva à Justiça um acordo já desenhado. O principal motor da onda recente é o custo do dinheiro: com a Selic entre 13,75% e 15% ao ano desde 2023, empresas endividadas passaram a gastar uma fatia cada vez maior do caixa só com juros.<br><br>Para o investidor, o impacto vai além das ações, que costumam cair forte no anúncio. Quem tem debêntures, CRIs, CRAs ou fundos de crédito privado com papéis da empresa passa a depender do plano de recuperação para receber, geralmente com desconto e prazo maior.<br><br>No caso da Light, por exemplo, cerca de R$ 7 bilhões da dívida estavam com detentores de debêntures. Essa é a essência do crédito privado: uma taxa alta é a forma de o mercado remunerar um risco maior.<br><br>O momento atual torna essa conta ainda mais relevante. Com os títulos do Tesouro IPCA+ pagando perto de IPCA + 8% ao ano, com risco soberano, uma debênture que paga IPCA + 9% oferece apenas 1 ponto percentual a mais pelo risco de uma empresa.<br><br>Antes de investir, vale avaliar a saúde financeira de quem está devendo, diversificar entre emissores e setores e limitar a exposição a um único papel.<br><br>Recuperações judiciais fazem parte do ciclo econômico e tendem a aumentar em períodos de juros altos. Para quem investe, elas reforçam que a taxa mostra quanto um investimento pode pagar, e a análise de quem está do outro lado mostra a chance de esse pagamento acontecer.<br><br>Patrimônio se constrói com disciplina e consistência ao longo dos anos, e essa disciplina começa entendendo o risco de cada escolha.<br></p>