No mercado de rochas, produzir bem não basta: é preciso influenciar mercados

Após multiplicar as exportações por seis e movimentar mais de R$ 15 bilhões em 2025, indústria aposta em inteligência comercial, promoção internacional e construção de valor.

Por Fábio Cruz ·

No mercado de rochas, produzir bem não basta: é preciso influenciar mercados

<p>Em pouco mais de duas décadas, o setor brasileiro de rochas naturais multiplicou suas exportações por seis. Saiu de aproximadamente US$ 250 milhões para cerca de US$ 1,5 bilhão anuais e movimentou mais de R$ 15 bilhões em 2025, considerando as vendas ao mercado interno e ao exterior. Grande parte dessa riqueza é gerada pelo arranjo produtivo consolidado no Espírito Santo, hoje reconhecido como um dos mais importantes polos mundiais de beneficiamento e exportação de rochas naturais.</p><p>Poucos setores da economia brasileira passaram por uma transformação tão expressiva.</p><p>Ao longo desse período, o Brasil aprendeu a produzir melhor. Investiu em tecnologia, ampliou sua capacidade industrial, conquistou eficiência, desenvolveu um parque produtivo moderno e consolidou presença nos principais mercados internacionais. Essa trajetória explica boa parte do sucesso alcançado até aqui.</p><p>Mas talvez não explique, sozinha, o sucesso das próximas décadas.</p><p>Durante muitos anos, o setor brasileiro cresceu atendendo a uma demanda que já existia. Empresas italianas ajudaram a apresentar as rochas brasileiras ao mundo, desenvolveram mercados, influenciaram arquitetos, consolidaram canais de distribuição e transformaram matérias-primas brasileiras em produtos valorizados internacionalmente.</p><p>Quando as empresas brasileiras passaram a exportar chapas diretamente para mercados como os Estados Unidos, encontraram consumidores que já conheciam esses materiais. A principal missão, naquele momento, foi produzir com qualidade, eficiência e escala para conquistar espaço em um mercado que já estava formado.</p><p>E o setor fez isso muito bem.</p><p>O ambiente competitivo de hoje, entretanto, é bastante diferente daquele que impulsionou o crescimento das últimas décadas.<br>A concorrência internacional aumentou. Os materiais sintéticos conquistaram uma parcela importante da demanda. O acesso à informação deixou de ser um diferencial. Encontrar fornecedores em qualquer parte do mundo tornou-se simples. Produtos cada vez mais parecidos disputam a atenção dos mesmos clientes.</p><p>Nesse contexto, produzir bem continua sendo indispensável. Mas já não é suficiente.</p><p>Com frequência, discutimos como vender mais ou como vender mais caro. Talvez ainda discutamos pouco como nos tornar mais competitivos. Essa diferença é importante, porque competitividade não se resume à eficiência produtiva. Ela também depende da capacidade de compreender os mercados, antecipar mudanças, construir relacionamentos, comunicar diferenciais e aumentar o valor percebido pelos clientes.</p><p>Em outras palavras, competitividade também depende da capacidade de influenciar a forma como o mercado percebe valor. Isso envolve entender quem especifica os materiais, acompanhar tendências, construir confiança, fortalecer canais de relacionamento e mostrar, com clareza, por que uma rocha natural brasileira deve ser escolhida em meio a tantas alternativas.</p><p>É por isso que iniciativas como promoção internacional, inteligência comercial, aproximação com arquitetos e designers, sustentabilidade baseada em dados, inovação, defesa comercial e fortalecimento da imagem das rochas naturais brasileiras deixaram de ser atividades complementares. Hoje, elas fazem parte da própria construção da competitividade.</p><p>O Brasil reúne uma das maiores geodiversidades do planeta. O Espírito Santo, por sua vez, transformou essa diversidade em um arranjo produtivo altamente especializado, capaz de conectar blocos provenientes de diferentes regiões do país a uma indústria moderna, exportadora e reconhecida internacionalmente pela sua capacidade de gerar produtos de alto valor agregado.</p><p>Essa talvez seja uma das maiores demonstrações da nossa capacidade de evoluir.</p><p>O próximo desafio talvez não seja apenas produzir para atender uma demanda existente. Será participar ativamente da construção dessa demanda, disputar preferência em vez de apenas competir por preço e contribuir para que o mercado compreenda, valorize e escolha as rochas naturais brasileiras.</p><p>Se conseguirmos fazer essa transição, talvez o próximo capítulo da história do setor não seja lembrado apenas pelo crescimento das exportações. Será lembrado pelo momento em que o Brasil transformou sua capacidade produtiva em capacidade de influência, construindo mercados, gerando mais valor e consolidando o Espírito Santo como o centro de um dos arranjos produtivos de rochas naturais mais competitivos do mundo.</p>