O Google entrou no mercado imobiliário. A informação ficou de graça?

Avanço da plataforma sobre anúncios de imóveis nos EUA pressiona portais e reforça uma mudança maior: informação perde valor, enquanto negociação, curadoria e execução ganham peso.

Por Luiz Stanger ·

O Google entrou no mercado imobiliário. A informação ficou de graça?

<p>Na coluna de hoje, o que a chegada do Google ao setor imobiliário significa para quem vai comprar ou vender um imóvel.</p><p>No mês passado, o Google anunciou a expansão dos seus anúncios de imóveis para todos os 50 estados americanos. Quem busca um imóvel no Google agora vê preço, fotos e características direto no resultado da busca, e pode ligar, mandar mensagem ou agendar visita sem sair da página. O mercado reagiu na hora: as ações de grandes conglomerados como Zillow caíram 4,9% e as da CoStar 3,6% no dia do anúncio, e o Zillow já acumula queda de 53% no ano.</p><p>Isso está acontecendo no mercado imobiliário mais valioso do planeta: um estoque residencial de US$ 55,1 trilhões. Quando algo muda lá, chega aqui.</p><p>A leitura apressada diz que o Google atacou os portais. A leitura correta é outra: a informação imobiliária ficou mais um degrau mais acessível, mais dispersa e mais barata. E cada degrau nessa escada elimina uma camada de gente que vivia de revender informação.</p><p><strong>A informação deixou de ser produto</strong></p><p>Houve um tempo em que saber o que estava à venda era um ativo. O corretor guardava a carteira, o cliente dependia dele para enxergar o mercado. Os portais quebraram esse monopólio há vinte anos. Agora o Google quebra o monopólio dos portais, entregando o imóvel na primeira tela da busca. E o próximo passo é óbvio: a inteligência artificial conversando diretamente com o comprador.</p><p>Em cada uma dessas etapas, o que morre não é a profissão. O que morre é o serviço que se resumia a encaminhar PDF, mandar link de anúncio e esperar a comissão. Esse serviço já não vale nada, porque a matéria-prima dele, a informação, agora é gratuita e está no bolso do cliente. Impossível esquecer a frase que escutei de um grande CEO, num grande evento do mercado financeiro nos idos de 2018: “o acesso a informação gera deflação nos custos de transação”.</p><p><strong>O mercado americano já colocou isso no papel</strong></p><p>No mesmo dia do anúncio do Google, a consultoria Alloy Advisors publicou um estudo que mapeou as 23 tarefas envolvidas na venda de um imóvel e concluiu: o profissional humano supera a inteligência artificial com clareza em apenas 3 delas. O que sobra para o humano é o núcleo duro: negociação de alto nível, responsabilidade legal e julgamento presencial.</p><p>E aqui vem o dado que interessa a quem paga a conta: o estudo estima que esse núcleo humano vale de três a seis vezes menos do que se paga hoje em comissão. A conclusão dos autores é que o padrão de comissionamento tende a quebrar. Com uma ressalva importante, que assino embaixo: negociadores altamente treinados vencerão a IA por muito tempo, talvez para sempre. A conta só não fecha para quem cobra pelo trabalho que a máquina já faz de graça.</p><p><strong>O consumidor já se mexeu</strong></p><p>Quase metade dos compradores americanos já usou ou pretende usar inteligência artificial na jornada de compra este ano. A Homa, fundada por um ex-diretor da Zillow, cobra 1% de comissão em vez dos 3% tradicionais e devolve a diferença ao comprador no fechamento, uma economia média superior a US$ 10 mil por transação.</p><p>O detalhe mais revelador da história da Homa: ela nasceu querendo ser 100% inteligência artificial, sem corretor nenhum. E o próprio mercado a obrigou a recuar. Hoje ela mantém corretores locais pagos por hora para mostrar imóveis, negociadores licenciados revisando cada proposta e um coordenador dedicado acompanhando inspeções, financiamento e cartório até a entrega das chaves. Nem a empresa mais agressiva de tecnologia imobiliária dos Estados Unidos conseguiu eliminar o humano do processo. Conseguiu apenas eliminar o humano que não fazia nada.</p><p><strong>Exclusividade pode ganhar ainda mais força</strong></p><p>Tem um efeito colateral desse movimento que pouca gente percebeu.</p><p>Na era da inteligência artificial varrendo informações, comparando anúncios e até agendando visitas, espalhar o imóvel com diversas empresas e corretores pode causar um efeito perverso. A IA vai encontrar o mesmo imóvel repetido, com preços diferentes, metragens desencontradas e descrições desconexas. Para o algoritmo, isso não é exposição. É ruído. O anúncio perde credibilidade na leitura da máquina antes mesmo de chegar ao comprador.</p><p>Por isso o caminho é ter um ponto fixo de confiança, capacitado para ser o representante do imóvel perante o mercado de empresas, corretores e potenciais clientes. Um canal único que distribua a informação de forma padronizada para todos os players e, principalmente, faça o que vitrine nenhuma faz: curadoria de quem entra no seu imóvel, filtro de visitas, análise da forma de pagamento de cada proposta, condução do financiamento ou do pagamento à vista, acompanhamento em cartório até o dinheiro cair na conta. A informação se espalha sozinha. A gestão do processo, não.</p><p><strong>A onda vai chegar aqui</strong></p><p>O impacto desse movimento não é para os Estados Unidos. É para o mundo inteiro, Brasil incluído. Quando essa onda chegar, quem compra e quem vende vai poder exigir mais.</p><p>A minha dica: da próxima vez que for comprar ou vender um imóvel, faça a pergunta que o mercado americano já está fazendo. O que esse profissional entrega que o algoritmo não entrega? Se a resposta for um link, você já sabe o que está pagando. Se a resposta for avaliação correta, leitura do mercado local, negociação, segurança jurídica e condução completa da curadoria, visita e escolha, passando por documentação, pagamento e entrega de chaves, aí sim existe serviço. Porque a informação ficou barata. O que continua caro, e vai ficar ainda mais, é saber o que fazer com ela.</p><p><strong>Informação constrói. Um olhar estratégico sobre imóveis, patrimônio e os bastidores do mundo imobiliário.</strong></p>