Número de empresas cresce mais que o número de empregos gerados no ES

Cruzamento inédito entre registro de CNPJ e movimentação de trabalho formal mostra municípios onde cada nova empresa trouxe quase três empregos e outros onde o saldo foi negativo.

Por Daniel Galvêas ·

Número de empresas cresce mais que o número de empregos gerados no ES

<p>O Espírito Santo ganhou um saldo líquido de 137 mil CNPJs ativos entre o fim de 2021 e dezembro de 2025, e 133 mil vínculos formais no mesmo período. No agregado, a conta praticamente fecha: uma média de 0,97 emprego para cada empresa aberta.</p><p>Mas o número estadual esconde uma diferença radical entre municípios, e é essa diferença que o Observatório de Empresas do Espírito Santo permite ver pela primeira vez lado a lado.</p><p>Sobrepondo os registros de CNPJs ao saldo dos empregos gerados, o mesmo esforço de abertura de empresas produz resultados muito divergentes nos municípios do estado.</p><p>Entre os municípios com pelo menos 500 CNPJs abertos no período, Aracruz apresentou a maior relação, com 3.355 novos CNPJs e saldo positivo de 9.623 empregos, equivalente a 2,9 vagas por empresa. Anchieta veio em seguida, com 1.108 CNPJs e 2.477 empregos, razão de 2,2. Itapemirim também alcançou 2,2, com 962 CNPJs e 2.113 postos formais.</p><p>Na outra ponta, Marechal Floriano registrou 737 CNPJs e apenas 277 empregos, relação de 0,4. Colatina teve 3.487 CNPJs e saldo negativo de oito empregos, enquanto São Gabriel da Palha contabilizou 858 CNPJs e perdeu 1.025 vínculos formais, chegando a uma relação negativa de 1,2 emprego por CNPJ.</p><p><strong>O que aconteceu no polo de confecção</strong></p><p>Nos dois casos, a explicação é a mesma e tem nome. A atividade de confecção de peças do vestuário foi, isoladamente, o maior dreno de emprego formal dos dois municípios: −1.081 vínculos em São Gabriel da Palha e −711 em Colatina. No estado inteiro, o setor acumula saldo de −2.417 no período, resultado de 16,8 mil admissões contra 19,2 mil desligamentos. Marilândia (−213) e Linhares (−163) completam o desenho de um polo têxtil regional em contração.</p><p>A leitura se confirma também na RAIS, fonte independente e de metodologia distinta. Enquanto o estoque de vínculos formais do Espírito Santo subiu 21% entre 2021 e 2025, São Gabriel da Palha encolheu 10%, passando de 6.383 para 5.754 vínculos. Colatina avançou apenas 4,8%, menos de um quarto do ritmo estadual.</p><p><strong>Do outro lado, a indústria pesada</strong></p><p>Onde a razão é alta, há investimento produtivo identificável. Em Aracruz, o saldo positivo se concentra em construção de embarcações e estruturas flutuantes (+2.045), atividades paisagísticas (+1.780) e manutenção e reparação de máquinas industriais (+1.713), puxados pela expansão industrial e portuária.</p><p>O estoque de vínculos do município saltou 42% desde 2021, o dobro da média estadual. Anchieta e Itapemirim, os outros dois no topo da lista, também têm perfil industrial e portuário.</p><p>O contraste com o caso de Colatina é o ponto central. Colatina abriu CNPJs praticamente no mesmo ritmo do estado (21% de crescimento, contra 30% da média capixaba), e um volume absoluto maior que o de Aracruz. A base de empresas cresceu, mas a base de empregos não.</p><p><strong>Empregos e a sazonalidade agrícola</strong></p><p>Municípios de forte base agrícola exigem cautela nesse tipo de leitura. Em Sooretama e Jaguaré, os dois maiores produtores de café da lista, o CAGED registra picos de mais de 1,5 mil admissões em cada mês de maio, de colheita, seguidos de desligamentos ao longo do segundo semestre.</p><p>O saldo anual desses municípios fica próximo de zero justamente porque quase todo o contingente contratado na safra é dispensado depois dela.</p><p>Por isso, a comparação usa apenas anos-calendário completos, encerrando em dezembro de 2025. Uma janela que terminasse em maio de 2026 (último dado disponível) capturaria o pico da colheita sem o refluxo, e faria Sooretama aparecer com 3,6 empregos por CNPJ.</p><p>Isso é um exemplo legítimo de como a escolha da janela pode inverter a conclusão em séries com sazonalidade forte.</p><p><strong>Por que a distinção importa</strong></p><p>Contagem de CNPJ é o indicador mais citado quando se fala em dinamismo econômico local, e é o mais fácil de obter. Também é o que mais tem potencial de enganar quando lido sozinho. Um MEI aberto por alguém que perdeu o emprego formal pode aparecer nas estatísticas como uma empresa que vai contratar dez pessoas.</p><p>Para quem desenha política de desenvolvimento local, os dois casos pedem respostas opostas. Um município com razão alta (Empregos/CNPJs) tem demanda por qualificação profissional, moradia e infraestrutura para sustentar a expansão.</p><p>Um município com razão baixa e setor tradicional em queda tem outro problema: a abertura de empresas ali pode estar medindo a resposta individual ao desemprego, não a chegada de investimento. Sem o segundo indicador, os dois casos são indistinguíveis na estatística.</p><p>O Observatório de Empresas do ES disponibiliza os dois indicadores no mesmo painel, com filtro por município e por atividade econômica, permitindo que a leitura seja refeita para qualquer recorte.</p><p>Acesse em: <a target="_blank" rel="noopener noreferrer" href="https://galvd.github.io/observatorio-es">https://galvd.github.io/observatorio-es</a></p>