Menos da metade das empresas capixabas chega aos cinco anos
De cada 100 empresas abertas no Espírito Santo, 43 continuam de pé no quinto ano. Há setores inteiros onde nem uma em cada cinco atravessa e apenas 22 empresas chegam ao décimo ano.
Por Daniel Galvêas ·
<p>O Espírito Santo tinha 596.865 empresas ativas em julho de 2026. Outras 714.558 já foram baixadas, ou seja, há mais baixadas do que ativas no acumulado histórico, desde o início da série histórica. Cruzando a idade das que estão abertas hoje, pode-se notar uma curva de desgaste bastante clara.</p><p>Do total de empresas capixabas, 81,9% chegam a completar um ano de vida. Aos dois anos são 68,6%, aos três, 58,2%, e aos quatro, 50,1%. É aí que a metade some. Do quarto para o quinto ano caem mais sete pontos de uma vez, a queda mais forte de todo o trecho inicial da curva: apenas 43,1% das empresas chegam ao quinto aniversário. Aos dez anos resta pouco mais de um quinto do estoque, 22,1%.</p><h2><strong>Onde a empresa dura, e onde não dura</strong></h2><p>A chance de uma empresa completar cinco anos varia bastante de um município para outro, e essa variação não segue o mapa da riqueza. Os percentuais a seguir indicam, em cada cidade, que fatia das empresas chega ao quinto ano de vida.</p><p>Os piores índices do estado estão na Grande Vitória. Em Serra, 37,0% das empresas chegam aos cinco anos, mesmo patamar de Sooretama. Vêm em seguida Viana, com 38,3%, Cariacica, com 39,2%, e Vila Velha, com 40,1%. Todas ficam abaixo da média estadual de 43,1%.</p><p>Os melhores estão no interior serrano e no sul. Alfredo Chaves lidera, com 54,9% das empresas passando dos cinco anos, seguida de Mimoso do Sul (54,3%), Afonso Cláudio (54,0%) e Iconha (54,0%). Entre as cidades maiores, Colatina tem o melhor desempenho, com 47,2%, e Vitória aparece logo atrás, com 46,0%.</p><p>A leitura mais provável, no entanto, está relacionada à localização e atividade, mas não ao mérito. Onde a economia é mais dinâmica há mais abertura de negócio, o estoque de empresas é mais jovem, e a taxa de sobrevivência aparente cai. É a mesma lógica que reaparece no corte por setor.</p><h2><strong>Os setores onde o negócio é quase descartável</strong></h2><p>O recorte a seguir considera apenas atividades econômicas de fato, com pelo menos 3 mil empresas ativas no estado. Ficaram de fora condomínios prediais, organizações religiosas, sindicatos, associações e órgãos públicos, que têm CNPJ mas não são negócio, não dependem de faturamento e por isso praticamente não fecham. </p><p> No conjunto, esses registros têm taxa de baixa de 21,5%, contra 52,9% das empresas de verdade, e 85,2% deles passam dos cinco anos. Condomínio predial é o caso extremo: são 6.441 ativos no Espírito Santo e apenas 37 baixas em toda a história, uma taxa de 0,6%.</p><p>Entre as atividades empreendedoras, a sobrevivência aos cinco anos vai de 11,9% a 62,5%.</p><p>A pior de todas é malote e entrega, com 11.433 empresas ativas e apenas 11,9% chegando ao quinto ano. Logo acima estão o transporte rodoviário de táxi (18,2%, com 7.644 empresas) e os serviços de infraestrutura de apoio a empresas (também 18,2%, com 3.389). </p><p>Completam a lista das seis piores as atividades de fotocópias e preparação de documentos, com 20,6% e quase 13 mil empresas ativas, os profissionais de saúde que não são médicos, com 24,7%, e a publicidade não especificada, com 26,1% e mais de 20 mil registros. Perto do fundo aparecem ainda o ensino não especificado (27,8%) e o transporte rodoviário de carga (27,9%), este último com 23.522 empresas ativas, uma das maiores atividades do estado.</p><p>No outro extremo está a construção de edifícios, onde 62,5% das empresas chegam aos cinco anos. Depois vêm o comércio de ferragens, madeira e material de construção (57,8%), o comércio de tecidos e artigos de cama, mesa e banho (57,2%), as atividades imobiliárias de imóveis próprios (56,9%) e a confecção de peças do vestuário (55,1%). Mercados e mercearias e o comércio de peças e acessórios para veículos empatam em 54,1%, e as padarias e casas de laticínios e doces fecham a lista com 52,4%.</p><p>O contraste entre as duas pontas é de natureza, e não de esforço. Em cima está o comércio com ponto fixo, estoque e vizinhança, negócio caro de abrir e caro de fechar. Embaixo estão atividades de plataforma, entrega e prestação de serviço individual, que explodiram em número na última década e hoje concentram um estoque muito jovem.</p><p>O padrão se repete de forma sistemática nos dados: quanto mais um setor cresceu em número de empresas, menor a fatia dele que chega aos cinco anos. Boa parte do que se chama de “setor em expansão” no Espírito Santo é, na prática, rotatividade, com gente entrando e gente saindo ao mesmo tempo.</p><p>O quanto o setor paga também não ajuda a prever nada. Atividades de salário médio alto não são as atividades onde a empresa dura mais.</p><h2><strong>O peso do MEI</strong></h2><p>Dois terços das empresas capixabas são microempreendedores individuais: 381.259 de 596.865, ou 63,9% do total. Em novembro de 2021 essa fatia era de 68,0%. No entanto, esse percentual varia bastante devido à sazonalidade inerente à modalidade do MEI.</p><p>Entre os MEIs que já foram encerrados, a distribuição de idade mostra que a baixa, quando vem, vem cedo. Do total de MEIs baixados no estado, 27,8% não passaram do primeiro ano e 61,9% não passaram do quinto. Considerando todas as empresas capixabas, a idade média no momento do encerramento é de 6,5 anos.</p><h2><strong>O que os números dizem</strong></h2><p>A sobrevivência empresarial no Espírito Santo tem menos a ver com região próspera ou setor bem pago do que com o custo de entrada do negócio. </p><p>Onde abrir é barato e rápido, como em entrega, transporte individual e serviços de escritório, fechar também é, e a rotatividade come o estoque antes do quinto ano. Onde abrir exige ponto, estoque e capital, a empresa dura quase o dobro.</p>