O Espírito Santo que o novo governo recebe: mais empresas, salários maiores, emprego mais lento e um crescimento desigual
Entre o fim de 2022 e outubro de 2026, o Espírito Santo ganhou 132 mil empresas e 104 mil empregos com carteira.
Por Daniel Galvêas ·
<p>Lorenzo Pazolini (Republicanos), eleito governador no segundo turno, assume em 1º de janeiro um estado que mudou de forma desigual nos últimos quatro anos.</p><p>Os números compilados pelo Observatório de Empresas do Espírito Santo resumem os quatro anos do mandato que agora se encerra.</p><p>A comparação vai de dezembro de 2022 até o dado mais recente de cada fonte: outubro de 2026 para empresas, agosto de 2026 para o emprego formal mensal e 2025 para o retrato anual do mercado de trabalho.<br><br><strong>Um estado com mais empresas, e empresas maiores</strong></p><p>O Espírito Santo tinha 485,6 mil CNPJs ativos em dezembro de 2022. Em outubro de 2026, eram 617,5 mil, um aumento de 27%.</p><p>O crescimento foi mais forte fora do microempreendedor individual. As empresas que não são MEI passaram de 160,7 mil para 224,4 mil, uma alta de 40%, enquanto os MEIs cresceram 21%. Com isso, a fatia do MEI no total caiu de 66,9% para 63,7%.</p><p>Entre as empresas que não são MEI, a expansão foi maior nos serviços. As da área de saúde cresceram 74%, e as de serviços profissionais, técnicos e de tecnologia, 68%. A construção cresceu 47%, o transporte, 33%, e o comércio, 29%. A indústria foi a que menos avançou, com 22%.</p><p>Algumas atividades mudaram de tamanho no período. O transporte rodoviário de carga ganhou 11,8 mil CNPJs e quase dobrou. Os serviços de malote e entrega triplicaram, de 4,3 mil para 12,9 mil. Os motoristas por conta própria, somando táxi e transporte por aplicativo, passaram de 4,7 mil para 8,9 mil. No sentido contrário, o comércio de roupas perdeu 2,5 mil lojas, e a confecção, 506 fábricas.<br><br>O crescimento das empresas foi maior na região metropolitana. Os sete municípios da Grande Vitória aumentaram seu número de empresas em 30% no período, contra 24% no restante do estado. A fatia da região no total capixaba subiu de 56,7% para 57,9%.<br><br>Entre os municípios com pelo menos 3 mil empresas, os que mais cresceram foram Santa Maria de Jetibá (37%), Serra (34%), Viana (33%), Linhares (33%) e Aracruz (30%). Na outra ponta estão Alegre (11%), Guaçuí (12%), São Gabriel da Palha (17%), Piúma (18%) e Itapemirim (19%). Considerando as macrorregiões, o Sul foi a que menos cresceu, com 21%.</p><p><strong>O emprego perdeu fôlego</strong></p><p>O saldo de empregos com carteira, medido pelo Novo Caged, foi positivo em 104 mil vagas entre janeiro de 2023 e agosto de 2026. Mas o ritmo não foi constante.<br>Em 2023 e 2024, o estado criou cerca de 34,5 mil vagas formais por ano. Em 2025, foram 14,2 mil, uma queda de 59%. </p><p>No Brasil, a desaceleração no mesmo ano foi de 24%, de 1,68 milhão para 1,28 milhão de vagas. Com isso, a participação capixaba no emprego criado no país caiu de 2,1% para 1,1%.</p><p>O ano de 2026 não recuperou o ritmo anterior. De janeiro a agosto, o saldo foi de 20,7 mil vagas, um terço abaixo das 31,5 mil do mesmo período de 2024.</p><p>As atividades que mais contrataram no período foram o atendimento hospitalar, com 7,2 mil vagas, o transporte rodoviário de carga, com 5,3 mil, a manutenção de máquinas industriais, com 3,3 mil, e a construção de edifícios, com 3,2 mil. As que mais perderam foram a confecção, com 2,2 mil vagas a<br>menos, e o comércio de roupas, com 1,5 mil.</p><p>O retrato anual da RAIS confirma a expansão do emprego, ainda que mais lenta no fim: o estado passou de 1,02 milhão de vínculos formais em 2022 para 1,13 milhão em 2025, uma alta de 11%.<br><br><strong>Salários subiram acima da inflação, mais na base</strong></p><p>O salário médio do trabalhador com carteira no setor privado capixaba passou de R$ 2.690 em 2023 para R$ 3.074 em 2025. É uma alta de 14,3% em valores nominais.</p><p>Descontada a inflação do período, medida pelo IPCA (4,83% em 2024 e 4,26% em 2025), o ganho real foi de 4,6% em dois anos. O avanço foi pequeno em 2024, de 1,3% acima da inflação, e mais forte em 2025, de 3,2%.</p><p>A comparação começa em 2023 porque, a partir desse ano, a RAIS passou a ser montada inteiramente com dados do eSocial, e o Ministério do Trabalho recomenda não compará-la diretamente com os anos anteriores. O setor público ficou de fora da conta, porque a mesma mudança afetou o registro dos salários dos servidores.</p><p>O ganho foi maior justamente nos setores que pagam menos. Na construção, o salário médio subiu 9,6% acima da inflação, para R$ 3.030. Na agropecuária, 8,4%, para R$ 2.092, e em hotéis, bares e restaurantes, 7,6%, para R$ 1.955. Indústria e comércio ficaram perto da média, com 5,1% e 5,0%. </p><p>Já nos setores de salários mais altos, o avanço real foi pequeno: 1,1% nos serviços profissionais e de tecnologia, que pagam em média R$ 4.553, e 1,4% na saúde. </p><p>O movimento coincide com os reajustes do salário mínimo acima da inflação no período e aproximou um pouco os salários da base dos do topo.</p><p>Entre os municípios com mais de 10 mil empregados no setor privado, os maiores ganhos reais foram em<br>Guarapari (7,6%), Aracruz (7,4%) e Colatina (6,7%). Vitória, onde está o maior salário médio do estado, de R$ 4.212, teve ganho de 5,3%. Serra, que está entre os municípios que mais criaram empregos, teve avanço real de apenas 1,9%. Em dois municípios, o salário médio subiu menos que a inflação: Viana, com perda real de 0,5%, e São Mateus, com perda de 1,4%.<br><br>Mais empresas fechando<br>O número de empresas encerradas também subiu. Foram 39,9 mil baixas em 2022, 49,5 mil em 2023 e cerca de 66 mil em 2024 e em 2025. Em 2026, até outubro, já são 59,8 mil, o que deixa o ano perto de superar os anteriores.</p><p>Parte desse volume não é fechamento espontâneo. As baixas se concentram em poucos meses, como novembro de 2023, outubro de 2024 e junho de 2026, quando o estoque de empresas do estado caiu entre 30 mil e 36 mil de uma só vez. O padrão é típico de cancelamentos em lote de cadastros inativos.</p><p><strong>O que os números deixam para o próximo governo</strong></p><p>Os dados não dizem o que o novo governo deve fazer, mas indicam onde estão as diferenças. O estado abre empresas em bom ritmo, e elas estão mais estruturadas do que há quatro anos. Os salários do setor privado subiram acima da inflação, sobretudo nas faixas mais baixas. A criação de empregos com carteira, porém, desacelerou mais do que a média do país, e ainda não voltou ao nível de 2023 e 2024. </p><p>Além disso, o crescimento ficou concentrado na Grande Vitória e no eixo industrial do litoral norte, enquanto o Sul e o polo de confecção do Noroeste avançaram pouco ou perderam empregos.</p>