Competitividade se constrói além dos ciclos políticos e não cabe em um mandato
Rochas naturais mostram como vantagens econômicas exigem planejamento de longo prazo.
Por Fábio Cruz ·
<p>Ela é resultado de décadas de investimento, conhecimento, infraestrutura, instituições e capacidade empresarial acumulados ao longo do tempo. Governos mudam, prioridades mudam, tecnologias e mercados também. Mas as condições que permitem a um território competir precisam continuar sendo construídas.</p><p>O setor de rochas naturais ajuda a entender esse processo. A posição que o Espírito Santo ocupa hoje não surgiu de uma única decisão pública ou de um ciclo favorável. Foi construída progressivamente. </p><p>A atividade ganhou escala, incorporou tecnologia, formou profissionais, desenvolveu fornecedores, criou serviços especializados, aproximou-se dos mercados internacionais e consolidou no estado um dos principais polos brasileiros de produção, beneficiamento e exportação de rochas naturais.</p><p>Empresas são as protagonistas da competição: investem, inovam e conquistam mercados. Mas não competem isoladas do território em que estão inseridas.</p><p>É exatamente nesse ponto que uma visão liberal da economia encontra um papel fundamental para o Estado: não substituir o empreendedor, mas construir as condições coletivas que nenhuma empresa consegue produzir sozinha.</p><p>No caso das rochas naturais, três gargalos tornam essa discussão concreta: instituições que funcionem, conhecimento sobre o território e infraestrutura que conecte produção a mercados.</p><p>O primeiro é institucional. A mineração depende de uma agência reguladora tecnicamente estruturada, capaz de oferecer previsibilidade e decidir em prazos compatíveis com a dinâmica econômica. Nas rochas naturais, uma jazida pode levar muitos anos para chegar à produção, enquanto o interesse comercial por determinado material pode mudar muito mais rapidamente.</p><p>O segundo é conhecimento. Possuir riqueza mineral e conhecer essa riqueza são coisas diferentes. Pesquisa geológica, mapeamento e caracterização de recursos reduzem incertezas e orientam investimentos. Conhecimento geológico também é infraestrutura econômica.</p><p>O terceiro é infraestrutura. Uma empresa pode ser altamente produtiva dentro de sua fábrica e ainda perder competitividade quando o produto atravessa o portão. Portos, rodovias, ferrovias e acessos influenciam diretamente custo, previsibilidade e acesso aos mercados.<br>Cachoeiro de Itapemirim oferece uma demonstração concreta dessa relação.</p><p>Em 2026, a Cachoeiro Stone Fair recebeu 14.752 visitantes em três dias. Mais significativo: 28% participavam pela primeira vez — cerca de 4.130 novos contatos circulando por um dos principais polos produtivos do setor.</p><p>Mas a feira já não cabe apenas dentro da feira.</p><p>Durante aqueles dias, empresas que sequer expõem recebem compradores, organizam eventos, apresentam materiais e abrem suas fábricas. O próprio diagnóstico realizado após a edição de 2026 resumiu o fenômeno: a feira já é maior do que o pavilhão.</p><p>Cachoeiro construiu algo que muitas regiões gastariam anos tentando criar: um destino econômico. Compradores, distribuidores, marmoristas e fornecedores têm motivos concretos para viajar até a cidade.</p><p>E justamente aí aparece o próximo limite: a capacidade empresarial de atrair pessoas começa a esbarrar na capacidade do território de recebê-las. Acesso, estacionamento, mobilidade, hospedagem e infraestrutura externa passaram a fazer parte do problema competitivo.</p><p>Cachoeiro não precisa descobrir como atrair pessoas. Boa parte desse trabalho já foi realizada ao longo de décadas. O desafio é fazer com que a infraestrutura avance na mesma velocidade da vantagem competitiva que o território construiu.</p><p>Essa é uma das principais lições do caso. Vantagens competitivas levam décadas para se formar, mas podem encontrar limites quando as capacidades públicas necessárias para sustentá-las não são construídas com a mesma antecedência.</p><p>O raciocínio vale para uma cadeia produtiva inteira. Uma empresa pode desenvolver uma jazida, mas não mapear o território nacional. Pode comprar máquinas de última geração, mas não construir uma ferrovia. Pode abrir mercados no exterior, mas não garantir sozinha a eficiência dos portos.</p><p>É nesse encontro entre capacidade empresarial e capacidade territorial que parte importante da competitividade é construída.</p><p>Por isso, talvez precisemos elevar o nível do debate econômico. Uma obra pode ser necessária, mas não é uma estratégia. Um incentivo pode resolver um problema, mas não define uma trajetória. Medidas isoladas respondem a problemas. Estratégias constroem capacidades.</p><p>A diferença está em saber onde queremos chegar.</p><p>O Espírito Santo possui um ativo importante nesse sentido. Ao longo das últimas décadas, o estado desenvolveu uma tradição de planejamento que passou pelo ES 2025, pelo ES 2030 e chegou ao ES 500 Anos. </p><p>A lógica é reconhecer que determinadas decisões precisam ultrapassar os ciclos políticos e manter uma referência de longo prazo para o desenvolvimento. O atual Plano ES 500 Anos foi formalmente concebido com perspectiva supragovernamental e governança de longo prazo capaz de transcender ciclos políticos.</p><p>Isso não significa congelar políticas públicas ou imaginar que governos diferentes devam pensar da mesma maneira. Instrumentos mudam e prioridades são revistas. O que não deveria precisar ser reconstruído a cada quatro anos é a capacidade de compreender nossas vantagens, identificar gargalos e continuar desenvolvendo os ativos necessários para competir.</p><p>Planejamento de longo prazo não significa prever o futuro. Significa decidir qual futuro queremos construir.</p><p>Para o Espírito Santo, uma ambição possível é transformar cada vez melhor suas vantagens territoriais e seus recursos naturais em produtos de maior valor, conhecimento, tecnologia e presença internacional.</p><p>As rochas naturais mostram que isso é possível. O valor econômico existente hoje não estava pronto no subsolo. Foi construído por gerações de empresas, trabalhadores, fornecedores e instituições.</p><p>Empresas continuarão investindo, inovando e disputando mercados. Ao Estado caberá fazer bem aquilo que nenhuma delas consegue fazer sozinha.</p><p>Empresas competem no presente. Territórios constroem competitividade ao longo do tempo.</p><p>Governos têm ciclos.</p><p>A competitividade precisa ter trajetória.</p>