Café capixaba bate recordes lá fora. Mas como está a vida de quem produz aqui dentro?
Exportações avançaram 58% até setembro, mas a receita cresceu menos e a queda dos preços pressiona a rentabilidade no campo.
Por Walfredo Zamprogno ·
<p>O café capixaba vive um bom momento no mercado internacional. As exportações crescem, novos compradores aparecem e o Espírito Santo segue como protagonista na produção e na venda do conilon. Mas fica uma pergunta que vale a conversa: todo esse sucesso está chegando ao bolso de quem produz?</p><p>Entre janeiro e setembro de 2026, o Estado exportou mais de 5 milhões de sacas, alta de 58% sobre o mesmo período do ano passado. A receita cambial chegou a US$ 1,2 bilhão, avanço de 28%. Só o conilon respondeu por 4,22 milhões de sacas embarcadas, segundo o Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV).</p><p>Os números impressionam, mas escondem um detalhe: o volume cresceu mais do que a receita. Na média, cada saca exportada rendeu menos dólares do que em 2025. É aí que a conversa começa.</p><p><strong>Produzir mais, vender mais e ganhar menos?</strong></p><p>A realidade do cafeicultor não cabe só nas estatísticas de exportação. Fertilizantes, energia, irrigação, mão de obra, colheita e transporte continuam pesando bastante no custo da lavoura. Quando o preço recebido cai, quem tem menor produtividade sente primeiro.</p><p><strong>E quanto sobra no bolso?</strong></p><p>Na safra 2024/25, o custo total do conilon capixaba, nas propriedades acompanhadas pelo Senar-ES, foi de R$ 590,78 por saca, contra um preço médio de venda de R$ 1.206,34. Para cada real investido, o produtor ficou com R$ 1,04 de lucro líquido. Em números redondos, sobraram cerca de R$ 615 por saca, mais da metade do que entrou.</p><p>Em 2026, a conta é outra. Em abril, a saca variava entre R$ 800 e R$ 850. O tipo 7 girava em torno de R$ 880 a R$ 900, o menor patamar em dois anos. Mantido o custo de R$ 590, a sobra estimada fica entre R$ 210 e R$ 310 por saca: de metade a dois terços a menos que no ano passado.</p><p>E o custo não ficou parado. O diesel subiu cerca de 12% no Estado, e a colheita pode encarecer até 15%. A margem real tende a ser ainda menor do que essa conta.</p><p>Há um alerta importante: as propriedades da pesquisa do Senar-ES produziram 61,58 sacas por hectare, e um estudo aponta média estadual de cerca de 39 sacas por hectare em 2024. Quem está abaixo dessa linha sente a queda do preço bem mais.</p><p><strong>Estimativas ainda divergem</strong></p><p>Enquanto o IBGE estima uma safra capixaba de aproximadamente 14,5 milhões de sacas de conilon em 2026, a Secretaria Estadual da Agricultura trabalha com redução de 20% a 25% em relação ao ano anterior. A diferença mostra que as lavouras ainda reservam surpresas, principalmente entre cafezais novos e antigos.</p><p><strong>O mundo está de olho</strong></p><p>O café capixaba chegou a 63 países nos nove primeiros meses do ano. Bélgica, México, Alemanha e Colômbia estão entre os maiores compradores, sinal claro de competitividade.</p><p>Mas o caminho agora é outro: agregar valor, fortalecer as cooperativas, levar tecnologia ao campo, melhorar a qualidade e dar ao produtor ferramentas para vender melhor a safra. O futuro da cafeicultura capixaba não pode depender só de produzir mais.</p><p><strong>Olhando para frente</strong></p><p>Com um novo ciclo se aproximando, clima, preços e custos serão os assuntos a acompanhar. O Espírito Santo já provou que sabe produzir café com eficiência. O desafio agora é transformar essa força em renda, segurança e prosperidade para as famílias do campo.</p><p>Porque, no fim das contas, o sucesso do agronegócio não se mede só pelo que sai pelos portos, mas pela riqueza que fica no campo.</p><p>Esse é o meu olhar.</p>