Aluguel residencial em Vitória sobe 15% em um ano; quatro quartos na Praia do Canto já chega a R$25 mil

Escassez de terrenos, crescimento da demanda e avanço da locação como alternativa à compra elevam preços em bairros como Praia do Canto, Enseada do Suá e Barro Vermelho

Por Luiz Stanger ·

Aluguel residencial em Vitória sobe 15% em um ano; quatro quartos na Praia do Canto já chega a R$25 mil

<p><strong>Um sintoma nacional, não um problema do Sudeste</strong></p><p><br>Se o aluguel subisse apenas onde sempre foi caro, seria custo de vida. Subir onde menos se esperava é o que o transforma em sintoma. Em 2025, as maiores altas do país não vieram do eixo Rio e São Paulo. Vieram do Norte e do Nordeste. Segundo o Índice FipeZAP, Teresina liderou com 21,8%, seguida de Belém (17,6%), Aracaju (16,7%) e João Pessoa (15,3%). A média nacional foi de 9,4%, mais que o dobro da inflação oficial.</p><p><br>No eixo tradicional, o movimento foi mais comportado, e até se inverteu. São Paulo desacelerou, de 11,5% em 2024 para 8% em 2025. O Rio de Janeiro fez o oposto: acelerou de 8% para quase 11%, e passou a capital paulista no ritmo de alta. São Paulo segue com o metro quadrado de locação mais caro entre as capitais, em torno de R$ 64, mas deixou de ser o termômetro da pressão. Quem dita o ritmo hoje está espalhado pelo mapa.</p><p><br>E é aqui que Vitória entra. Entre todas as capitais, ela é a do Sudeste que mais sobe, com alta de cerca de 15% em doze meses, lado a lado com Cuiabá, Teresina e Aracaju. Não se trata de um acaso regional. É a mesma escassez de terreno que já fez de Vitória a capital com o metro quadrado de venda mais caro do país, agora pressionando também quem aluga.</p><p><br>A leitura é direta. Quando o preço de morar sobe ao mesmo tempo em Teresina, em Cuiabá, no Rio e em Vitória, não estamos diante do problema de uma cidade ou de uma região. Estamos diante de um país onde a demanda por moradia cresce mais rápido que a oferta, e o aluguel é o primeiro lugar onde essa conta aparece.</p><p><br>O aluguel deixou de ser a sala de espera de quem ainda vai comprar. Virou a forma como o Brasil mora. E isso muda o jogo para quem investe.</p><p><br>Na coluna de hoje trago um número que, sozinho, conta uma transformação: 23,8%. É a fatia de domicílios alugados no Brasil em 2025, segundo o IBGE. Em 2016 era 18,4%. Ou seja, quase um em cada quatro lares brasileiros hoje é de inquilino, o maior patamar de toda a série histórica da pesquisa.</p><p><br>Não é um repique de mercado. É uma mudança de comportamento, de renda e de demografia acontecendo ao mesmo tempo. E, como quase tudo no imobiliário, ela chega ao investidor antes de chegar à manchete.</p><p><strong><br>Um país que virou inquilino</strong></p><p><br>Os dados da PNAD Contínua, do IBGE, mostram o tamanho do movimento. O número de imóveis alugados saltou de 12,3 milhões em 2016 para 18,9 milhões em 2025, um avanço de mais de 50% em menos de uma década. No mesmo período, a fatia de imóveis próprios já quitados recuou de 66,7% para 60,2%.</p><p><br>Por trás disso há dois vetores que conversam. O primeiro é econômico: juros altos, crédito restrito e renda pressionada empurram a classe média para a locação. O segundo é demográfico: a parcela de brasileiros morando sozinhos passou de 12,2% em 2012 para 19,7% em 2025, são 15,6 milhões de pessoas, e esse perfil demanda exatamente o imóvel menor e, na maioria das vezes, alugado. Some-se a verticalização, com os apartamentos subindo de 13,7% para 17,1% do total de domicílios, e o quadro fica completo.</p><p><strong><br>O preço correndo acima da inflação</strong></p><p><br>E o aluguel não está apenas mais frequente. Está mais caro. Os novos contratos residenciais subiram 9,44% em 2025, segundo o Índice FipeZAP, mais que o dobro do IPCA no período. O ritmo seguiu firme em 2026, com alta acumulada de 8,40% em doze meses até abril, novamente bem acima da inflação oficial.</p><p><br>Quando um preço supera a inflação por dois anos seguidos e de forma disseminada pelo país, não estamos diante de um ajuste pontual. Estamos diante de demanda estrutural encontrando uma oferta que não cresce no mesmo ritmo.</p><p><br><strong>Inadimplência em baixa: ninguém está blefando</strong></p><p><br>E há um dado que desfaz a ideia de que esses valores são apenas pedida de anúncio. Mesmo com o aluguel subindo acima da inflação, os inquilinos estão pagando. A inadimplência locatícia no país caiu para 3,18% em abril de 2026, o menor nível em doze meses e o segundo recuo consecutivo, segundo o Índice da Superlógica. Entre os apartamentos, ficou em apenas 2,11%.</p><p><br>A leitura importa para os dois lados. Significa que a pressão de demanda é real, e não um blefe de quem anuncia. E significa que o proprietário, ao ver a carteira saudável, ganha confiança para reposicionar o imóvel em outro patamar quando o contrato permite, ou mesmo para retomá-lo em busca de um inquilino disposto a pagar o preço novo de mercado.</p><p><br><strong>Vitória, 15% em um ano: a realidade da escassez</strong></p><p><br>É aqui que a leitura capixaba se impõe. Em Vitória, o valor dos aluguéis subiu cerca de 15% em apenas um ano, muito acima da inflação, com o metro quadrado de locação em torno de R$ 54, acima da média nacional.</p><p><br>Vale descer ao detalhe de quem vive esse mercado por dentro. Em bairros como Enseda do Suá e Barro Vermelho as kitnets, os atuais studios, aqueles compactos sem divisão entre quarto e sala, vêm sendo alugados na faixa de R$ 3.500 a R$ 4.500, conforme a montagem, de armários a mobília completa com eletrodomésticos. E, mesmo nesse valor, a oferta é baixíssima.</p><p>No médio padrão, apartamentos de dois e três quartos muitas vezes se confundem nos preços. Na Praia do Canto, um três quartos de 100 metros quadrados pode partir de R$ 7 mil e chegar a R$ 10 mil. Já um dois quartos no chamado miolo da Praia do Canto começa em R$ 4.500, com 51 metros, e pode alcançar R$ 8 mil quando tem 75 metros, todo montado e bem mobiliado. No alto padrão, em imóveis de quatro quartos, o valor pode bater R$ 25 mil, a depender do estado de conservação. Todos esses perfis têm demanda diária e pouquíssima oferta.</p><p><br>Até os imóveis originais, os chamados antigos, pegaram preço, chegando a cerca de 60% dos valores citados. Mas, pelo estado original, costumam vir acompanhados de manutenção e, muitas vezes, de um condomínio considerado alto. Isso gera desconto nos recebíveis do proprietário, por conta da taxa extra e dos reparos, e às vezes pequenas dores de cabeça para o inquilino, que precisa lidar com quebras e consertos.</p><p><br>A causa é a mesma que faz de Vitória a capital com o metro quadrado de venda mais caro do país, hoje na casa dos R$ 14,6 mil, com valorização de 13% em doze meses: a escassez real de terreno na ilha. Venda e locação correm juntas porque bebem da mesma fonte. Onde não cabe nova oferta, o preço de morar sobe, seja para comprar, seja para alugar.</p><p><strong><br>A face que o boom esconde</strong></p><p><br>Convém dizer, com a sobriedade que o tema exige, que nem todo aluguel é escolha. O déficit habitacional brasileiro era de quase 6 milhões de moradias em 2023, e o custo do aluguel responde por mais de 60% desse número. Uma pesquisa Ipsos mostra que 36% dos inquilinos não acreditam que conseguirão comprar um imóvel. E a inadimplência, embora baixa na média, ainda morde a base: nos imóveis de até R$ 1.000, ela beira os 6%, sinal de que as famílias de menor renda são as que mais sentem a conta.</p><p><br>Para o investidor atento, isso não é apenas uma estatística social. É o tamanho de uma demanda contida. Cada família que hoje aluga porque não pode comprar é um comprador em potencial à espera da janela de crédito. A pressão sobre a locação é a contrapartida visível de uma compra adiada.</p><p><strong><br>A hora da renovação: o novo xadrez do aluguel</strong></p><p><br>Vale uma observação que poucos fazem. Ano a ano, o aluguel é reajustado por IPCA ou IGP-M, conforme o que foi pactuado em contrato. Mas, ao fim do contrato, a renovação costuma depender do patamar de mercado, e é nessa hora que a alta cobra o seu preço. O bom inquilino, aquele que paga em dia e cuida do imóvel, ganha o bônus de uma negociação mais suave.</p><p>Já o inquilino que deu trabalho ao longo da locação pode não encontrar a mesma disposição do proprietário em seguir na parceria.</p><p><br>Aos poucos, a locação deixa de ser uma relação apenas de preço e vira um xadrez de quatro peças: custo do dinheiro, defesa de patrimônio, comportamento e prazo. Para os dois lados, ler esse tabuleiro com antecedência vale mais do que reagir ao reajuste quando ele chega.</p><p><strong><br>O que os números pedem</strong></p><p><br>Moradia é a demanda mais essencial que existe, e em Vitória ela esbarra num limite físico de terreno que não se resolve no curto prazo. O aluguel em alta não é um problema passageiro a ser esperado de braços cruzados. É o retrato de um mercado onde a procura cresce mais rápido que a oferta.</p><p><br>Os 23,8% de hoje não são um teto. São o começo de uma mudança estrutural na forma como o brasileiro mora e, por consequência, na forma como se investe em imóveis. Em Vitória, com ainda mais força. Para quem decide, o recado dos números é direto: estar posicionado agora é capturar a renda da locação hoje e a onda dos compradores represados amanhã.</p>