Cachoeiro Stone Fair: a força de uma feira está no ecossistema que ela mobiliza
Cachoeiro Stone Fair mostra como uma feira pode se transformar em plataforma de negócios para toda a cadeia de rochas.
Por Fábio Cruz ·
<p>Uma feira forte não é apenas um lugar onde empresas expõem produtos e compradores circulam. Ela funciona como uma infraestrutura econômica capaz de concentrar pessoas, acelerar negócios, disseminar conhecimento e ativar todo o ecossistema de uma cadeia produtiva. Quando isso acontece dentro de um território onde a própria indústria está concentrada, seus efeitos podem ir muito além dos limites do pavilhão.</p><p>A última edição da Cachoeiro Stone Fair oferece um bom estudo de caso. Em apenas três dias, o evento registrou 14.752 visitantes de 25 países e reuniu mais de 200 marcas expositoras. É um movimento expressivo para uma cidade cuja população é estimada pelo IBGE em pouco mais de 198 mil habitantes.</p><p>Frequento essa feira há mais de 25 anos e, nesta última edição, uma coisa me chamou particularmente a atenção. A cidade estava movimentada, havia clientes visitando empresas, recepções e eventos acontecendo em diferentes lugares e uma intensa circulação de profissionais do setor. Ao mesmo tempo, existe uma percepção, entre parte de quem acompanha a feira há muitos anos, de redução da presença de algumas empresas de rochas dentro dos pavilhões.</p><p>À primeira vista, parece uma contradição. Talvez não seja.</p><p>Algumas empresas passaram a aproveitar aquela semana de outra forma. Recebem clientes nas próprias fábricas, apresentam estoques completos, organizam encontros e visitas técnicas e transformam seus showrooms em parte da programação comercial. Em muitos casos, isso faz sentido: dentro da indústria é possível mostrar muito mais do que caberia em qualquer estande.</p><p>Foi observando esse movimento que cheguei a uma conclusão: <strong>a feira ficou maior que o pavilhão</strong>.</p><p>Há um conceito da geografia econômica que ajuda a explicar esse fenômeno. Grandes feiras empresariais são estudadas como <em>temporary clusters</em>, ou clusters temporários. Durante alguns dias, empresas, fornecedores, clientes e profissionais de uma mesma atividade se concentram fisicamente em determinado lugar, intensificando a circulação de conhecimento, a formação de relações e o surgimento de oportunidades.</p><p>Cachoeiro apresenta uma característica adicional: esse cluster temporário acontece dentro de um cluster produtivo permanente.</p><p>Dados divulgados pelo Governo do Espírito Santo apontam quase 600 empresas do setor instaladas no município e aproximadamente 6,5 mil empregos diretos. Não estamos falando, portanto, de uma feira simplesmente instalada em uma cidade. Ela acontece dentro de um território cuja estrutura empresarial, história e conhecimento acumulado estão profundamente ligados àquela atividade econômica.</p><p>Quando um comprador chega a Cachoeiro, pode visitar a feira pela manhã e, poucas horas depois, estar dentro de uma fábrica vendo uma linha de produção funcionar. Pode entrar em um estoque com centenas de chapas, conhecer equipamentos em operação, conversar diretamente com técnicos e empresários ou compreender processos que dificilmente caberiam dentro de um estande.</p><p>Em outras palavras, ele pode sair da feira e entrar na própria cadeia produtiva.</p><p>Essa densidade alcançou uma escala relevante. Em 2025, o Espírito Santo exportou US$ 1,16 bilhão em rochas naturais e respondeu por 78,5% das exportações brasileiras do setor. Serra e Cachoeiro, juntas, ultrapassaram US$ 730 milhões em vendas externas. A feira acontece, portanto, no coração de uma das cadeias produtivas mais internacionalizadas da economia capixaba. <a target="_blank" rel="noopener noreferrer" href="https://centrorochas.org.br/noticia/espirito-santo-mantem-lideranca-e-sustenta-recorde-historico-nas-exportacoes-de-rochas-naturais-em-2025/?utm_source=chatgpt.com">Centrorochas</a></p><p>Por isso, talvez seja limitado avaliar um evento dessa natureza apenas pelo número de expositores ou pela metragem ocupada. Se, durante a mesma semana, fábricas estão cheias, clientes circulam pelos showrooms e empresas organizam suas próprias agendas, existe uma atividade econômica provocada pela feira que simplesmente não aparece na planta do pavilhão.</p><p>Mas esse transbordamento traz uma reflexão importante. Quanto mais coisas acontecem fora da feira, mais importante se torna a conexão entre aquilo que ocorre dentro e fora dela.</p><p>Uma visita industrial, uma demonstração técnica ou uma recepção de clientes podem enriquecer muito a experiência de quem veio ao território. O desafio talvez não seja levar toda essa atividade de volta para o pavilhão, mas fazer com que essas iniciativas sejam cada vez menos percebidas como agendas paralelas e cada vez mais como partes de um mesmo ecossistema.</p><p>Cada empresa consegue gerar valor dentro de sua própria estrutura, mas nenhuma delas, isoladamente, produz a mesma concentração de pessoas, agendas e interesses que um grande evento é capaz de criar. Fazer com que milhares de profissionais escolham determinado território, na mesma semana, é um ativo coletivo. E quanto maior o valor gerado ao redor dele, maior a importância de preservar aquilo que continua produzindo essa concentração.</p><p>A relação funciona nos dois sentidos: <strong>a feira alimenta o território, e o território ajuda a fortalecer a feira</strong>.</p><p>Há ainda outra transformação em curso. Durante muito tempo, uma das principais funções de uma feira era dar acesso à informação. Era preciso viajar para descobrir um novo material, conhecer uma máquina ou encontrar um fornecedor. Hoje, boa parte disso chega instantaneamente pelo celular.</p><p>Isso não torna a feira menos relevante. Torna mais exigente a razão para viajar até ela.</p><p>Se a informação básica já está disponível em uma tela, a presença física precisa entregar aquilo que o digital reproduz com dificuldade: experiência, relacionamento, confiança, demonstração, conhecimento prático e descoberta. Não por acaso, nas discussões realizadas depois da última Cachoeiro Stone Fair, marmoristas de diferentes regiões pediram mais demonstrações técnicas, capacitação, contato com novas tecnologias, visitas às empresas e troca de conhecimento.</p><p>Talvez estejam descrevendo, intuitivamente, uma parte da feira do futuro. Quanto mais fácil se torna acessar informação, maior passa a ser o valor da imersão.</p><p>É nesse ponto que o território entra definitivamente na equação.</p><p>Quando uma feira cresce além do pavilhão, estrada, aeroporto, mobilidade, hospedagem, gastronomia e qualidade urbana deixam de ser assuntos completamente separados da cadeia produtiva. Eles também influenciam a experiência das pessoas que decidiram investir tempo e dinheiro para estar naquele ambiente econômico.</p><p>Costumo usar um exemplo simples para provocar essa reflexão.</p><p>Imagine um distribuidor de pedras naturais no interior de São Paulo, em uma região próspera e com muitas obras de alto padrão. Ele poderia trabalhar apenas com materiais brasileiros sem dificuldade alguma. Temos centenas de opções de granitos, quartzitos e mármores, além de pedras semipreciosas utilizadas em revestimentos, decoração e mobiliário.</p><p>Ainda assim, ele decide trabalhar também com mármore italiano. Pode haver excelentes razões comerciais para isso, naturalmente, mas essa relação talvez não seja explicada apenas por margem ou giro de estoque.</p><p>Ter fornecedores italianos cria também uma razão profissional para voltar à Itália. Ele pode aproveitar a Marmomac, em Verona, visitar empresas e produtores, passar por Carrara, comer bem, ficar alguns dias próximo ao Lago di Garda, incluir alguma programação cultural e eventualmente estender um pouco a viagem.</p><p>Não significa que alguém compre mármore porque gosta da gastronomia italiana. A provocação é outra: <strong>por que tratamos hospedagem, gastronomia, mobilidade, turismo e qualidade da experiência como fatores externos à competitividade se eles também influenciam a relação das pessoas com determinado território?</strong></p><p>A Marmomac ajuda a dar dimensão a essa reflexão. Em 2025, reuniu mais de 1.400 empresas de 54 países e recebeu mais de 50 mil profissionais de 140 nacionalidades. É uma feira internacional inserida em um território que combina indústria, infraestrutura, hospitalidade, cultura e turismo. <a target="_blank" rel="noopener noreferrer" href="https://www.veronafiere.it/en/press-release/marmomac-2025-at-veronafiere-50000-operators-from-140-countries-confirm-the-events-world-leadership-in-the-natural-stone-industry/?utm_source=chatgpt.com">Veronafiere S.p.A.</a></p><p>Naturalmente, não faz sentido comparar diretamente Verona e Cachoeiro. São territórios construídos em contextos históricos, geográficos e econômicos completamente diferentes. O interesse está na provocação: um lugar capaz de atrair pessoas já possui um grande ativo; quando consegue fazê-las permanecer, ter boas experiências, construir relações e desejar voltar, captura ainda mais valor.</p><p>Por isso, dificuldades de hospedagem, mobilidade, acessos ou gastronomia podem ser vistas por outro ângulo. Não representam apenas inconvenientes para quem visita uma feira. Também sinalizam oportunidades econômicas ainda pouco exploradas.</p><p>E talvez o mais interessante seja perceber que Cachoeiro chegou até aqui apesar dessas limitações.</p><p>Existe uma indústria consolidada, uma concentração empresarial difícil de reproduzir, conhecimento acumulado, fornecedores, tecnologia e uma feira com mais de três décadas de história. Existe, sobretudo, capacidade de fazer quase 15 mil visitantes convergirem para esse território em apenas três dias.</p><p>Imagine o potencial desse mesmo ecossistema com melhores conexões, mais alternativas de hospedagem, mobilidade eficiente, gastronomia mais preparada e integração ainda maior entre feira, indústrias e cidade. Imagine uma semana em que o visitante pudesse combinar pavilhões, fábricas, pedreiras, demonstrações técnicas, encontros empresariais, conhecimento e experiências no território.</p><p>Nesse estágio, já não estaríamos discutindo apenas como tornar uma feira maior. Estaríamos discutindo como ampliar a capacidade do Espírito Santo de capturar valor a partir de uma cadeia produtiva construída ao longo de décadas.</p><p>Se a feira já ultrapassou suas fronteiras físicas, seu próximo estágio talvez não seja escolher entre aquilo que acontece dentro ou fora dos pavilhões. A oportunidade está em conectar cada vez melhor essas duas dimensões, fazendo com que o crescimento de uma fortaleça a outra.</p><p>Porque alguns dos ativos mais importantes de um cluster não pertencem a uma empresa isoladamente. Estão naquilo que se constrói coletivamente: reputação, conhecimento, relacionamentos, capacidade de atração e momentos em que um mercado inteiro decide se encontrar no mesmo lugar.</p><p><strong>A força de uma cadeia produtiva não está apenas no que ela consegue produzir e vender, mas no ecossistema que consegue construir ao seu redor. Cachoeiro já mostrou que sua feira pode crescer para além dos pavilhões. O próximo passo é fazer com que território, empresas e evento cresçam juntos — porque, quando o território se fortalece, ele também fortalece a competitividade de toda a cadeia.</strong></p>